Baixo peso ao nascimento

Sabe-se que a desnutrição pode iniciar-se já na vida
dentro do útero, trazendo conseqüências mais graves.
Quando uma criança nasce com menos de 2.500 g, é
considerada de baixo peso. O baixo peso ao nascer é um
importante fator de risco para "morbi-mortalidade" neonatal e infantil.
Quanto menor o peso ao nascer, maior é a mortalidade.

Criança menor de 2 anos sendo pesada na balança eletrônica

O baixo peso ao nascer, quando não associado à prematuridade, expressa o retardo do crescimento
intra-uterino e está relacionado à baixa condição socioeconômica da família.

Quanto mais alta é a proporção de nascidos
vivos de baixo peso, mais grave é o problema
de nutrição e de saúde pública na localidade.

A cada ano, cerca de 30 milhões de bebês
(24% do total de recém-nascidos) nascem
com retardo de crescimento intra-uterino
nos países em desenvolvimento.

No Sul da Ásia, esse percentual alcança 36% dos bebês, duas vezes a média dos países em desenvolvimento, que é de 18%. Em Bangladesh, essa proporção atinge 54%.




Recém-nascido pequeno para a idade gestacional/prematuro

Entende-se por recém-nascido de baixo peso qualquer criança com peso de nascimento inferior a 2500 g, independente da idade gestacional.
O peso de nascimento pode ainda ser classificado de acordo com a idade gestacional através do uso da curva de crescimento intra-uterino de Williams et al.(1982):

  • Pequeno para Idade Gestacional (PIG) quando, no nascimento, o recém-nascido tiver seu peso abaixo do percentil 10 da curva acima citada;
  • Poderá ser considerado Adequado para Idade Gestacional (AIG) quando seu peso estiver entre o percentil 10 e 90;
  • Grande para Idade Gestacional (GIG) quando seu peso estiver acima do percentil 90.

O recém-nascido pode ainda ser classificado por sua maturidade:

  • pré-termo quando tiver idade gestacional abaixo de 37 semanas;
  • de termo quando tiver idade gestacional entre 37 a 42 semanas;
  • pós-termo acima de 42 semanas.

Portanto, o recém-nascido de baixo peso pode estar em diferentes grupos. Este paciente pode ser uma criança de termo, mas pequeno para idade gestacional (PIG), uma criança prematura, mas com peso adequado para idade gestacional (AIG), ou ainda um recém-nascido pré-termo e pequeno para idade gestacional (PIG).

Na prática clínica, o termo PIG é utilizado para designar crianças que sofreram desnutrição intra-uterina. Alguns autores, porém, acreditam que essa identificação não é adequada, pois uma pequena porcentagem dos recém-nascidos que se encontram abaixo do percentil 10 nas curvas de peso pode não refletir uma desnutrição intra-uterina, mas sim uma variação biológica individual. Já a desnutrição, ou o retardo de crescimento intra-uterino, é um processo fisiopatológico decorrente de múltiplos fatores etiológicos.

Condições socioeconômicas desfavoráveis, desnutrição energético-protéica materna e doenças crônicas maternas que levam à insuficiência útero-placentária promovem o nascimento destas crianças pequenas para idade gestacional.

Dependendo da natureza da agressão e do momento da gestação em que esses danos acontecem, o grau e as características da desnutrição podem variar.

Se fatores adversos atuarem durante a última metade da gestação, mais intensas serão as repercussões no comprimento, peso e perímetro cefálico. É o retardo de crescimento intra-uterino (RCIU) do tipo 1 ou proporcionado. Quando a desnutrição afeta mais o peso deste paciente do que o perímetro cefálico ou comprimento, geralmente os fatores que causam este retardo atuaram no último trimestre, causando RCIU do tipo 2 ou desproporcionado. Diminuição da quantidade de massa gorda e partes moles são verificadas nestes RN PIG.

Formas de melhor avaliar clinicamente a desnutrição fetal, sem somente se basear em curvas de peso em relação a idade gestacional, são preconizadas por alguns autores, onde um ¨score¨ avaliando partes moles (pregas cutâneas ou dobras) classifica esse RCIU e serve como controle para monitorização destes pacientes no suporte nutricional.

De modo geral, existe consenso entre diferentes autores de que a desnutrição materna primária, com conseqüente desnutrição fetal, leva a um recém-nascido de baixo peso que apresenta pior evolução pondero-estatural do que aqueles que são baixo peso por intercorrências obstétricas (estas são mais freqüentes em países ricos e permitem maior chance de recuperação desta criança, diferente das nossas populações onde a inferioridade é mantida por mais tempo).

No crescimento pós-natal do recém-nascido de baixo peso, são reconhecidas 4 fases, que dependem da idade gestacional, da intensidade e da duração das intercorrências da fase anterior:

  • Perda fisiológica de peso - corresponde às modificações na distribuição de água e eletrólitos, onde clinicamente se traduz por perda de peso. Quanto menor for a idade gestacional e menor o peso de nascimento, maior a restrição nutricional e a duração das intercorrências clínicas desta fase;
  • Fase de estabilização - período onde as intercorrências são controladas;
  • Crescimento acelerado - ocorre crescimento rápido em peso, comprimento e perímetro cefálico, superior ao da população normal, na tentativa do RN alcançar seu canal de crescimento;
  • Fase de equilíbrio - onde ocorre crescimento em velocidade semelhante ao da população.

Tem-se observado que o recém-nascido (RN) de baixo peso (BP) pré-termo (PT) de peso adequado para a idade gestacional (AIG) tem evolução mais satisfatória, tanto em relação ao peso como ao comprimento quando comparado aos recém-nascidos (RN) de baixo peso (BP) de termo (T) e pequeno para a idade gestacional (PIG), demonstrando efeito negativo da desnutrição intra-uterina na vida pós-natal.
Observa-se também que quanto mais precoce é a instalação da desnutrição fetal, tendo o RN um RCIU do tipo 1, maiores são as seqüelas do ponto de vista nutricional.

A necessidade energética do recém-nascido (RN) na primeira semana de vida é de 120 Kcal/kg/dia e a necessidade hídrica, de 150 ml/kg/dia, sendo ele de termo e adequado para a idade gestacional (AIG). No recém-nascido (RN) pequeno para a idade gestacional (PIG), a necessidade passa a ser em torno de 180 kcal/kg/dia para o crescimento adequado. Relativo hipermetabolismo nos recém-nascidos (RN) com retardo de crescimento intra-uterino (RCIU) tem sido documentado, com maior consumo de oxigênio, que não é devido a maior atividade.

O recém-nascido (RN) pré-termo, seja adequado para a idade gestacional (AIG) ou pequeno para a idade gestacional (PIG), em função da inexistência da vida intra-uterina no terceiro trimestre - onde ocorre maior depósito de gordura - nasce com baixas reservas de energia, necessitando, portanto, da instalação precoce de suporte nutricional - o que nem sempre é possível ser plenamente feito em função das intercorrências clínicas que estes pacientes freqüentemente apresentam.

A avaliação pôndero-estatural desses recém nascidos prematuros é difícil, pois as curvas de peso existentes são baseadas em dados de uma população a termo. Para contornar este problema utilizamos um artifício na avaliação antropométrica: a correção do peso para a idade gestacionais. Para avaliar um recém-nascido prematuro até completar 40 semanas de vida pósnatal deve-se utilizar curvas do crescimento intra-uterino; após 40 semanas deve-se utilizar curvas do peso e estatura da população a termo descontando as semanas da vida pós-natal. Assim, um RN de 30 semanas só irá utilizar as curvas do crescimento da população a termo quando alcançar 10 semanas de vida. Essa correção deve ser feita para o peso até a criança completar 24 meses após o termo, para o comprimento até 42 meses e para o perímetro cefálico até 18 meses.

De forma geral, os recém-nascidos de baixo peso, sendo prematuros ou desnutridos intra-uterinos, são pacientes de risco para processos infecciosos e desnutrição energético-protéica futura e devem, portanto, ser rigorosamente monitorizados tanto no aspecto nutricional como nas intercorrências infecciosas.